segunda-feira, 29 de junho de 2015

No acender das luzes

Parece que foi há uma eternidade... ("só que não"). Em apenas dois meses, depois de uma queda, mamãe recuperou os movimentos, a fala... Observamos, contudo, que houve aumento do déficit de verbalização. Percebemos, ainda: lentidão para compreensão e movimentos de pega com a mão direita, alteração do equilíbrio e no comportamento, especialmente quando não consegue se expressar ou quando executa higiene pessoal - tem gritado, feito grunhidos, os tremores da boca tem sido mais constantes e a qualquer hora do dia. Evidencia comportamento, atitudes e movimentos repetitivos, na maioria das vezes compulsivos, se irritando se alguém interrompe a ação.

Os neurônios são muito delicados e, neste caso (DA e pessoa bem idosa), as áreas lesionadas já não podem regenerar. Por isso a nossa corrida contra o tempo para estimular e manter as capacidades mentais ainda preservadas, evitar a desconexão com o em torno, elevar a autoestima, preservar a autonomia, principalmente quando se trata de alimentar-se e dos cuidados pessoais, minimizar o estresse, fortalecer as relações sociais e melhorar a nossa qualidade de vida.

Existem várias técnicas para dar conta de toda essa estimulação cognitiva: orientação da realidade, terapia de reminiscência (desencadeia as lembranças e fortalece a autoestima), terapia de validação (facilita a compreensão e reduz a ansiedade), musicoterapia, laborterapia (atividades manuais), psicomotricidade, terapia cognitiva, entre outras. Eu me concentro na terapia cognitiva que permite exercitar e estimular as diferentes funções cognitivas, e na terapia de validação, visto que as outras técnicas já não produzem reações positivas. E no caso da musicoterapia não tenho conhecimento específico para adaptar o programa ao problema de audição de mamãe - ela faz leitura labial.
       
                                        
A cada dia readaptamos as atividades, percebemos limitações maiores e, às vezes, no apagar das luzes ela nos surpreende com suas respostas aos estímulos. A nova rotina ainda não se estabeleceu. Os horários ainda estão confusos. Mas, a alegria contagiante, a cantoria das marchinhas e a vivacidade desta vovozinha, ah isso não mudou !! 
                                       
Na busca de um título para este relato me senti provocada pela expressão "no apagar das luzes" que comumente usamos para designar uma conquista ou descoberta no finalzinho da linha de uma esperança. Mas, considerando todos os fatos, a gravidade do ocorrido, o tempo (apenas dois meses) e as conquistas, a melhor escolha é "acender as luzes" e olhar para o futuro - o que me enche de inspiração para mamãe viver (e eu conviver) nesta (e com esta) nova fase da doença nos contagiando (ainda) com a sua alegria. Fácil? Nem um pouco. Mas, possível.