Rompi o medo e o desconforto de falar sobre o dia que viveremos uma única vez nesta vida. Aquele dia que não contaremos com um novo amanhecer para colocar em prática nossos sonhos e desejos; para corrigir percursos infortúnios, começar aquela caminhada matinal que o médico recomenda, olhar nossos entes queridos e dizer o quanto os amamos, fazer aquela louca viagem... O que me inspirou ? Vamos lá...
A experiência de mamãe na fase avançada grave da doença e quase chegando aos 95 anos, coloca à prova a fragilidade humana. Me aproxima, por obrigação, de uma temática nenhum pouco prazerosa: a morte. Mas, ao mesmo tempo me ajuda a olhar a vida sob outros ângulos e redimensionar os problemas.
Ao viver quarenta dias debruçada em um leito de hospital, no início deste ano (2017), sentindo o sofrimento de mamãe, ouvindo palavras cuidadosas dos profissionais, mas por vezes carregadas de desesperança, assistindo a morte bater na porta ao lado..., a ficha cai na certeza de que todos nós temos um dia reservado para viver este momento único: a morte - anunciada ou não, é a única experiência que certamente não irá se repetir nesta vida. Não sei quanto a vocês, mas eu não me planejo para ela, não espero por ela, não gosto de falar sobre ela e, ainda assim, insisto em alimentá-la quando mantenho níveis elevados de estresse, quando cometo abusos gastronômicos sucessivos, quando deixo de fazer exercícios físicos e mentais, quando não me livro dos maus pensamentos e sentimentos, quando acumulo vibe negativa, quando deixo de respeitar o meu tempo, minhas prioridades, meus desejos... (sem exageros para não cair na vaidade, no egoísmo e no egocentrismo - lições já aprendidas há long time).
Diferentemente, o viver, se renova a cada vinte e quatro horas. Não lembro bem a hora que nasci, mas até aqui, já repeti essa experiência mais de 20 mil vezes com planejamento e abençoada com o dia seguinte - o que me enche de novas oportunidades para firmar as lições do bem viver e os valores que sustentam minha essência nesta vida.
Sei que não é proibido entristecer, sentir dor e raiva, por exemplo. O mais importante e digno de roubar meu tempo de vida, é encontrar respostas para o que irei fazer com esses sentimentos e qual o real valor que irei atribuir a cada revés desta trajetória. Não posso super valorizar algo que não me faz bem. Viver de forma produtiva, qualitativa e equilibrada contribui para que a vida possa se tornar uma experiência de longo prazo, mas se eu fizer por onde (alimentar corretamente minhas horas/vida).
Quero viver o momento presente da melhor forma possível e consciente de que sou um ser humano em buscar de aprendizado para meu processo de evolução. E quando minha natureza rude for mais forte, devo ser ainda mais firme no exercício do silêncio, da compaixão e do perdão - me perdoar, perdoar o outro e pedir o perdão. Espero continuar renovando forças diariamente para manter-me em equilíbrio nesses exercícios até que se transformem em competências desenvolvidas, me afastando cada vez mais da natureza rude de ser e viver.
O grande barato dessas "descobertas" (nem um pouco novas) está no fato de que aprendo todos os dias, especialmente e principalmente, com minha doce mãezinha (a vovozinha Carmen), e com as pesquisas e os estudos que tenho realizado sobre Cuidados Paliativos para dar conta de manter a qualidade de nossos dias e não precisar contar os dias de nossa convivência. Venço medos, enfrento desafios e limitações que surgem a cada novo dia. Vibro com as pequenas expressões que ela ainda mantém em reservas inexplicáveis de memória e com os simples movimentos que ainda consegue realizar, mesmo que não se repitam mais. Aprendo, ainda, a transcender e a usar essas lições em meu benefício e na convivência com outras pessoas, compreendendo melhor o momento da escala evolutiva do outro.
Nesse jeito de viver, prossigo desenhando e exercitando a melhor performance de reações diante do meu semelhante e dos reveses da vida. Consciente da certeza de que um dia (espero que muito distante) a morte me roubará (sem planejamento) as novas chances de amanhecer nesta vida. Vale a pena, então, corrigir o quanto antes minhas atitudes e exercitar o amor nas suas mais diferentes formas, do que deixar para resolver conflitos no final da linha da vida - ainda que eu consiga ganhar bônus de tempo/vida para isso.
#simplesassim
Vovozinha Carmen me inspira - na Escola da Vida, não poderia ter melhor Mestre para o exercício do meu processo de evolução ! Obrigado, Pai Celestial ! 🙏🙏🙏