(Publicado em janeiro/2016 - revisado em novembro/2017)
É impressionante como a alteração numa microscópica substância no meio de uma circuitaria gigantesca pode ser co-responsável por deflagrar doenças devastadoras em nosso cérebro, como por exemplo, às neurodegenerativas: Doenças de Alzheimer, de Parkinson e de Huntington, Ataxias Espinocerebelar e de Friedreich, Atrofia de múltiplos sistemas, Esclerose Lateral Amiotrofica, Atrofias muscular e bulbar espinhal, entre outras.
Muitos são os investimentos em pesquisas, mas poucos e a longínquos prazos são verificados resultados satisfatórios para tratamento dessas doenças. E a cada descoberta, novas portas se abrem para um universo de possibilidades.
No caso específico do estudo que realizo sobre a Doença de Alzheimer, já se sabe que ocorre uma deficiência em dois dos principais neurotransmissores responsáveis pelos sinais mensageiros no cérebro, importantes na aprendizagem e memória - neurotransmissores acetilcolinesterase (AChE) e N-methyl-D-aspartato (NMDA).
A respeito do neurotransmissor AChE, envolvido diretamente nos processos motores, cognitivos e da memória, e que nos pacientes com DA é observada uma grande deficiência, mamãe faz uso de rivastigmina desde o diagnóstico da doença (17 anos) para regular a quantidade necessária de acetilcolina (ACh) no cérebro.
Em se tratando da ação deficitária de NMDA, iniciou em junho do ano passado o uso de uma substância relativamente nova no mercado quanto à indicação para a DA: a memantina, que atua no receptor NMDA regulando a entrada excessiva de cálcio no neurônio - o que é tóxico e contribui para a morte neuronal. Após seis longos meses de uso dessa substância associada a muitas terapias, já observamos com muita alegria alguns benefícios sobre a cognição, as atividades de vida diária e o comportamento, como por exemplo: diminuiu a rigidez muscular da mão direita, apresentando respostas aos estímulos de pega, embora não tenha firmeza para segurar objetos e executar os movimentos de escrita; recuperou o interesse pela leitura, ainda bem reduzida a palavras e expressões; voltou a usar linguagem simples para fazer perguntas, expressar desejos, emitir opinião e verbalizar algumas sensações, que embora apresente dificuldades de elaboração do pensamento e esqueça o que falou no minuto seguinte, são conquistas surpreendentes.
Com uma ajudinha extra (a medicamentosa e as diversas terapias) e a capacidade do cérebro "de fazer novas combinações entre seus elementos e de mudar a eficiência das conexões - as sinapses - já existentes" (Herculano-Houzel), mamãe segue com um novo ritmo.
Infelizmente, por um problema auditivo de infância e pelas limitações motoras decorrentes da queda ocorrida ano passado, ela não consegue participar das terapias correspondentes - musical (que já eram bem restritas mesmo quando usava aparelho auditivo) e manual (a pintura e o artesanato que ela tanto gostava).
O tratamento inclui as terapiasmedicamentosa (rivastigmina e memantina) e não medicamentosa (terapias cognitiva e social, fisioterapia e tratamento fonoaudiológico). Este conjunto que faz parte da rotina diária de nossas vidas, ajuda mamãe dar boas "rasteiras no Alzheimer". Não tem folga, feriado e férias. Começa com o dia e termina ao deitar. Tudo é motivo para garantir uma boa estimulação (seja cognitiva, motora e/ou relacionada aos processos da memória), participação em atividades sociais e de vida diária, tornando a nossa rotina mais prazerosa.
Mais perplexa fico a cada dia com essa senhorinha miúda, de 93 anos e 17 anos, firme e forte, na luta (mesmo que inconsciente) pela desaceleração da doença de Alzheimer; que se reinventa após sequelas de algumas quedas e viroses; que encanta todos que a conhecem e aqueles que desejam conhecê-la; que a alegria não lhe falta e é contagiante.
Ahh, sem sombra de dúvida: o cérebro é a parte mais excitante e curiosa do nosso corpo ! E mamãe é a comprovação desta afirmativa. Você duvida ? Então, experimente....
... Fazer escolhas; exercitar a atenção, o pensamento lógico; vivenciar experiências com desafios mentais carregadas de significado;
... exercitar a linguagem e interagir socialmente, museando o ontem, o hoje e o amanhã.
São tantas as possibilidades de estimulação dessa circuitaria complexa e cheia de surpresas ! Isso é só uma pequena degustação do que pode ser excitante e curioso !



