sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O que mais te excita e gera curiosidade ?

(Publicado em janeiro/2016 - revisado em novembro/2017)

O cérebro é para mim a parte mais excitante e curiosa do nosso corpo! Fico perplexa com a sua complexidade e vulnerabilidade.

É impressionante como a alteração numa microscópica substância no meio de uma circuitaria gigantesca pode ser co-responsável por deflagrar doenças devastadoras em nosso cérebro, como por exemplo, às neurodegenerativas: Doenças de Alzheimer, de Parkinson e de Huntington, Ataxias Espinocerebelar e de Friedreich, Atrofia de múltiplos sistemas, Esclerose Lateral Amiotrofica, Atrofias muscular e bulbar espinhal, entre outras.

Muitos são os investimentos em pesquisas, mas poucos e a longínquos prazos são verificados resultados satisfatórios para tratamento dessas doenças. E a cada descoberta, novas portas se abrem para um universo de possibilidades.

No caso específico do estudo que realizo sobre a Doença de Alzheimer, já se sabe que ocorre uma deficiência em dois dos principais neurotransmissores responsáveis pelos sinais mensageiros no cérebro, importantes na aprendizagem e memória - neurotransmissores acetilcolinesterase (AChE) e N-methyl-D-aspartato (NMDA).

A respeito do neurotransmissor AChE, envolvido diretamente nos processos motores, cognitivos e da memória, e que nos pacientes com DA é observada uma grande deficiência, mamãe faz uso de rivastigmina desde o diagnóstico da doença (17 anos) para regular a quantidade necessária de acetilcolina (ACh) no cérebro.

Em se tratando da ação deficitária de NMDA, iniciou em junho do ano passado o uso de uma substância relativamente nova no mercado quanto à indicação para a DA: a memantina, que atua no receptor NMDA regulando a entrada excessiva de cálcio no neurônio - o que é tóxico e contribui para a morte neuronal. Após seis longos meses de uso dessa substância associada a muitas terapias, já observamos com muita alegria alguns benefícios sobre a cognição, as atividades de vida diária e o comportamento, como por exemplo: diminuiu a rigidez muscular da mão direita, apresentando respostas aos estímulos de pega, embora não tenha firmeza para segurar objetos e executar os movimentos de escrita; recuperou o interesse pela leitura, ainda bem reduzida a palavras e expressões; voltou a usar linguagem simples para fazer perguntas, expressar desejos, emitir opinião e verbalizar algumas sensações, que embora apresente dificuldades de elaboração do pensamento e esqueça o que falou no minuto seguinte, são conquistas surpreendentes.

Com uma ajudinha extra (a medicamentosa e as diversas terapias) e a capacidade do cérebro "de fazer novas combinações entre seus elementos e de mudar a eficiência das conexões - as sinapses - já existentes" (Herculano-Houzel), mamãe segue com um novo ritmo.

Infelizmente, por um problema auditivo de infância e pelas limitações motoras decorrentes da queda ocorrida ano passado, ela não consegue participar das terapias correspondentes - musical (que já eram bem restritas mesmo quando usava aparelho auditivo) e manual (a pintura e o artesanato que ela tanto gostava).

O tratamento inclui as terapiasmedicamentosa (rivastigmina e memantina) e não medicamentosa (terapias cognitiva e social, fisioterapia e tratamento fonoaudiológico). Este conjunto que faz parte da rotina diária de nossas vidas, ajuda mamãe dar boas "rasteiras no Alzheimer". Não tem folga, feriado e férias. Começa com o dia e termina ao deitar. Tudo é motivo para garantir uma boa estimulação (seja cognitiva, motora e/ou relacionada aos processos da memória), participação em atividades sociais e de vida diária, tornando a nossa rotina mais prazerosa.

Mais perplexa fico a cada dia com essa senhorinha miúda, de 93 anos e 17 anos, firme e forte, na luta (mesmo que inconsciente) pela desaceleração da doença de Alzheimer; que se reinventa após sequelas de algumas quedas e viroses; que encanta todos que a conhecem e aqueles que desejam conhecê-la; que a alegria não lhe falta e é contagiante.

Ahh, sem sombra de dúvida: o cérebro é a parte mais excitante e curiosa do nosso corpo ! E mamãe é a comprovação desta afirmativa. Você duvida ? Então, experimente....

      
                     
... Fazer escolhas; exercitar a atenção, o pensamento lógico; vivenciar experiências com desafios mentais carregadas de significado;

                                    
          ... exercitar a linguagem e interagir socialmente, museando o ontem, o hoje e o amanhã.

São tantas as possibilidades de estimulação dessa circuitaria complexa e cheia de surpresas ! Isso é só uma pequena degustação do que pode ser excitante e curioso !
     
     

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O dia que viveremos uma única vez nesta vida

Rompi o medo e o desconforto de falar sobre o dia que viveremos uma única vez nesta vida. Aquele dia que não contaremos com um novo amanhecer para colocar em prática nossos sonhos e desejos; para corrigir percursos infortúnios, começar aquela caminhada matinal que o médico recomenda, olhar nossos entes queridos e dizer o quanto os amamos, fazer aquela louca viagem... O que me inspirou ? Vamos lá... 

A experiência de mamãe na fase avançada grave da doença e quase chegando aos 95 anos, coloca à prova a fragilidade humana. Me aproxima, por obrigação, de uma temática nenhum pouco prazerosa: a morte. Mas, ao mesmo tempo me ajuda a olhar a vida sob outros ângulos e redimensionar os problemas. 

Ao viver quarenta dias debruçada em um leito de hospital, no início deste ano (2017), sentindo o sofrimento de mamãe, ouvindo palavras cuidadosas dos profissionais, mas por vezes carregadas de desesperança, assistindo a morte bater na porta ao lado..., a ficha cai na certeza de que todos nós temos um dia reservado para viver este momento único: a morte - anunciada ou não, é a única experiência que certamente não irá se repetir nesta vida. Não sei quanto a vocês, mas eu não me planejo para ela, não espero por ela, não gosto de falar sobre ela e, ainda assim, insisto em alimentá-la quando mantenho níveis elevados de estresse, quando cometo abusos gastronômicos sucessivos, quando deixo de fazer exercícios físicos e mentais, quando não me livro dos maus pensamentos e sentimentos, quando acumulo vibe negativa, quando deixo de respeitar o meu tempo, minhas prioridades, meus desejos... (sem exageros para não cair na vaidade, no egoísmo e no egocentrismo - lições já aprendidas há long time).

Diferentemente, o viver, se renova a cada vinte e quatro horas. Não lembro bem a hora que nasci, mas até aqui, já repeti essa experiência mais de 20 mil vezes com planejamento e abençoada com o dia seguinte - o que me enche de novas oportunidades para firmar as lições do bem viver e os valores que sustentam minha essência nesta vida. 

Sei que não é proibido entristecer, sentir dor e raiva, por exemplo. O mais importante e digno de roubar meu tempo de vida, é encontrar respostas para o que irei fazer com esses sentimentos e qual o real valor que irei atribuir a cada revés desta trajetória. Não posso super valorizar algo que não me faz bem. Viver de forma produtiva, qualitativa e equilibrada contribui para que a vida possa se tornar uma experiência de longo prazo, mas se eu fizer por onde (alimentar corretamente minhas horas/vida). 

Quero viver o momento presente da melhor forma possível e consciente de que sou um ser humano em buscar de aprendizado para meu processo de evolução. E quando minha natureza rude for mais forte, devo ser ainda mais firme no exercício do silêncio, da compaixão e do perdão - me perdoar, perdoar o outro e pedir o perdão. Espero continuar renovando forças diariamente para manter-me em equilíbrio nesses exercícios até que se transformem em competências desenvolvidas, me afastando cada vez mais da natureza rude de ser e viver.

O grande barato dessas "descobertas" (nem um pouco novas) está no fato de que aprendo todos os dias, especialmente e principalmente, com minha doce mãezinha (a vovozinha Carmen), e com as pesquisas e os estudos que tenho realizado sobre Cuidados Paliativos para dar conta de manter a qualidade de nossos dias e não precisar contar os dias de nossa convivência. Venço medos, enfrento desafios e limitações que surgem a cada novo dia. Vibro com as pequenas expressões que ela ainda mantém em reservas inexplicáveis de memória e com os simples movimentos que ainda consegue realizar, mesmo que não se repitam mais. Aprendo, ainda, a transcender e a usar essas lições em meu benefício e na convivência com outras pessoas, compreendendo melhor o momento da escala evolutiva do outro.

Nesse jeito de viver, prossigo desenhando e exercitando a melhor performance de reações diante do meu semelhante e dos reveses da vida. Consciente da certeza de que um dia (espero que muito distante) a morte me roubará (sem planejamento) as novas chances de amanhecer nesta vida. Vale a pena, então, corrigir o quanto antes minhas atitudes e exercitar o amor nas suas mais diferentes formas, do que deixar para resolver conflitos no final da linha da vida - ainda que eu consiga ganhar bônus de tempo/vida para isso.

#simplesassim

Vovozinha Carmen me inspira - na Escola da Vida, não poderia ter melhor Mestre para o exercício do meu processo de evolução !  Obrigado, Pai Celestial !  🙏🙏🙏





domingo, 14 de maio de 2017

Homenagem às mães

Hoje é o dia simbólico de homenagem às mães. Nestes últimos minutos do dia, agradeço à Deus pela benção concedida de poder viver mais um dia com meus amores. Assim como todos os dias do ano (deste e de tantos outros já vividos), me entrego ao amor de mãe e de filha, aquecida pelo carinho do meu filho e de nossa tão amada mãezinha-vovó Carmen. Lógico que, por razões óbvias, ela sempre rouba a cena !
O neto Eduardo no Aeroporto Internacional do Galeão
transportando a vovó para o carro ao chegar para
passar as férias de verão (dezembro/2014).

Mais um dia que pudemos ver o seu sorriso, embora muito tímido; ouvir sua cantoria, mesmo que parte dela seja entremeada com balbucios; olhar em seus olhos e decifrar seus desejos e necessidades, mesmo não conseguindo entender todas eles/as; ver televisão abraçados e de mãos dadas; lamber a tijela e nos deliciar com um bolinho caseiro de laranja; participar do encontro com familiares, mesmo mantendo-se em silêncio; curtir aquele momento de inversão dos papéis - o colo gostoso que antes era o da vovó, o aviãozinho de colher nas refeições que era para o neto, agora o neto devolve com muito carinho cada um desses mimos - lindos de ver e de viver essa experiência .

Mais um dia que fomos  aquecidos com seu jeitinho e olhar doces;  que pudemos envolvê-la em nossos braços e beijar sua face, sem nada esperar em virtude das atuais limitações motoras... 
Mais um dia que aprendemos com essa experiência: superar com alegria as angústias e dificuldades que a vida traz; exercitar a amorosidade e a paciência com todo o cansaço imposto pelos cuidados (hoje já na condição de paliativos) ao longo do dia.

Como não tenho o poder para definir o tempo de nossa convivência, me aproprio das palavras do padre Fábio de Melo, para externar a escolha que faço diariamente: "Eu não sei quanto tempo tenho. E porque não sei, eu resolvo que a melhor forma de viver esse tempo presente é amando. É vivendo este espaço onde eu posso dividir com ela as minhas habilidades com as suas impossibilidades. Este tempo em que nós nos misturamos um ao outro. Este tempo em que a vida me permite olhar para ela para decorar cada detalhe deste ser que é sem dúvida, sem medo de ser injusto com todos que já passaram pela minha vida, a pessoa que mais deixou marcas no meu coração. Então eu descubro que eu tenho a oportunidade de dar a ela a minha melhor parte, já que eu não sei quanto tempo ainda tenho."

Parabéns mamães (amigas e familiares) que habitam nossas vidas ! 
Obrigado, meu Deus, por me confiar a guarda e a educação deste meu lindo filho, Eduardo; e por me entregar aos braços da minha linda mãezinha, Carmen.

Ps.: Enquanto escrevo, o tempo não pára... e o hoje já virou ontem com lembranças maravilhosas de meus dois amores, nos papéis de filha e de mãe, renovando as energias para mais um dia. #FUI !!!