domingo, 24 de maio de 2015

Corpo, mente e coração: na busca de todas as formas de equilíbrio.

Faz bem pouco tempo que escrevi sobre a rotina de mamãe e sobre a importância de exercitar e estimular os neurônios. O que me motivou a escrever sobre o primeiro tema foi a bela performance da plasticidade neuronal de mamãe em resposta à intensidade e variedade dos exercícios que fazia diariamente. Já sobre o segundo tema, o que despertou-me para escrevê-lo foi a proximidade da nossa história com a do filme e do livro "Para sempre Alice". Pois bem, não mais do que há 25 dias tudo mudou em decorrência de uma queda.

Alguns estudos indicam que o risco de quedas em idosos com doenças degenerativas, como por exemplo a Doença de Alzheimer (DA) e de Parkinson (DP), e outras demências é bem grande. Os autores enfatizam que para haver o controle postural do corpo no espaço, como forma de promover estabilidade e orientação, é fundamental que haja integração das informações sensoriais com os sistemas neuromusculares. Desta forma o centro de massa do corpo se projeta dentro dos limites da sua base de apoio. No caso de pessoas com DA, as alterações nas reações do equilíbrio são gradativas. Inicialmente alteram-se os processos motores regulados por mecanismos corticais complexos (sentar e levantar). A diminuição da flexibilidade e mobilidade, alterações visuais, paresias, parestesias e pelo declínio cognitivo inerentes ao processo de envelhecimento, aumentam o risco de quedas em idosos, especialmente com DA.

Mamãe sempre teve uma ótima mobilidade para sua idade (92 anos) e fase da doença (intermediária) Contudo, algumas pequenas alterações motoras na marcha foram identificadas e trabalhadas desde setembro do ano passado em sessões sistemáticas de fisioterapia. Mesmo assim, um acidente doméstico não foi inevitável e com ele se foram mais alguns pedacinhos de suas funções cognitivas. O que antes ela fazia com prazer, pouquíssimas ou nenhuma intervenção e em pouco tempo, hoje realiza com muita dificuldade, muitas intervenções e em pequeninas quantidades.

                      
                                     Em 8 de abril de 2015.

          
                                                Hoje, 25 de maio de 2015.   
            
Ainda que eu tenha conhecimentos sobre a parcela degenerativa do processo de envelhecimento de mamãe é muito triste e extremamente dolorido reconhecer suas perdas. De teste em teste, num esforço coletivo das suas fiéis escudeiras - eu, sua terapeuta cognitiva ainda reconhecida como filha ou irmã (mais nova, é claro!), a fonoaudióloga e a fisioterapeuta, além do neurologista, estamos conseguindo identificar as funções cognitivas ainda preservadas e seus respectivos níveis de deterioração. A partir dos resultados e da recuperação gradativamente lenta do equilíbrio/estabilidade postural estamos reorganizando: novas formas de estimulação das diferentes funções cognitivas, especialmente as relacionadas com o domínio da linguagem; os exercícios para realizar com autonomia os movimentos básicos (alimentar, sentar, levantar, andar, despir e vestir); as atividades de vida prática e de interação social. Enquanto isso, vivemos um dia de cada vez, buscando o equilíbrio do corpo, da mente e do coração.

Estamos compreendendo e imprimindo alterações na rotina, no ritmo, nas adaptações de segurança para higiene e deslocamento mesmo dentro de casa, os limites (dela e meus) para passear e assumir compromissos que fazem parte dessa nova fase de nossas vidas. Aos poucos tudo vai ganhando nova forma de viver e ser feliz com quem amamos muito. De novo tudo novo para todos nós. Até quando ? Não sabemos. Mas, temos um exército de anjos unidos pela fé e na luta pela desacelaração do processo de evolução da doença. E a "Jardineira" ? - "Ô Jardineira, por que estais tão triste ? Mas o que foi que te aconteceu ?..." Essa, continua na lembrança de toda a memória esquecida de vovó Carmen e nos sinalizando que temos o bastante para sermos felizes ! 

Ah ! Um recadinho para o Dr Alzheimer: ela é guerreira ! Logo, logo e com a sua alegria contagiante lhe dará outra grande rasteira. 

Leituras complementares: 
- Risco de quedas em idosos com doença de Parkinson e demência de Alzheimer: um estudo transversal. Por Christofoletti G., et.al. Revista Brasileira de Fisioterapia, vol. 10, 2006.
- Fases de Alzheimer. Por Barry Reisberg.
- Exercício físico e função cognitiva: uma revisão. Por Hanna K. M. Antunes, et.al. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, vol 12, 2006.

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