A perda gradativa dos movimentos da mão direita de mamãe tem feito com que suas reservas de memória permitam o uso da mão esquerda em resposta aos estímulos motores. Assim, mais uma vez essa vovozinha (quase completando 93 anos e 17 anos com diagnóstico provável de DA) supera qualquer expectativa e continua guerreira, dando rasteiras no Alzheimer ! Mas, ... até quando, fênix ?
Há mais ou menos quatro meses, acentuou a lentidão dos movimentos do lado direito, o que gerou a perda da capacidade para a escrita e a pintura (uma das atividades mais prazerosas para ela). Há menos de um mês, atividades simples, como: levar o alimento à boca, fazer movimentos de pega, folhear revistas e seus livrinhos, se tornaram extremamente cansativas e, por vezes, estressantes. Por não conseguir respostas com o lado direito, mamãe tem feito o esforço com o esquerdo, embora não tenha desenvolvido habilidades suficientes ao longo da vida para usá-lo adequadamente. Mesmo assim, ainda se mantém firme na tentativa de executar essas mínimas tarefas.
Para aquela vovozinha que até as 10 horas da manhã já tinha lido duas histórias, feito vários jogos de quebra-cabeça, sequências, ordenação, ajudado a dobrar sacolinhas de mercado e/ou pequenas peças de roupas, entre outras atividades... agora suas ações estão extremamente limitadas. Lidar com tais mudanças requer coragem, serenidade e sabedoria. Ela, mais do que ninguém nesta vida, me ensina todos os dias essas lições! Mas, contamos também com a ajuda de profissionais, de muitas pessoas queridas e do universo literário científico.
Roberto Lent (2010), por exemplo, nos diz que "cada motoneurônio (neurônio motor) pode inervar diferentes células musculares de um mesmo músculo, mas cada célula muscular só é inervada por um único motoneurônio." Por dedução (quem sabe um dia por comprovação), uma vez perdida aquela célula neuronal (neste caso, motora), seja por formação de placas de proteína beta-amilóide ou pelo desuso do órgão, perdida estará a conexão desta área cerebral e, consequentemente, a capacidade motora do sujeito. Esse movimento, ou melhor, a perda deste, só é possível enxergar quando se torna perceptível na superfície corpórea (pelo menos para uma grande maioria da população - a cientificamente leiga, mas curiosa, como eu).
Num estudo literário científico, Ely e Grave (2008) vão além das alterações motoras. Elas verificaram que o avanço da incapacidade funcional pode acarretar uma série de limitações musculoesqueléticas, provocando interferências gradativas e irreversíveis desde os movimentos mais visíveis, tais como: a pega, a marcha e a reação instantânea de proteção; perpassando pelos padrões de funcionamento cardiorespiratório (perda gradativa da capacidade funcional da fala, da respiração, a expansão torácica e a função venosa); até os mais obscuros: as funções celulares que são acometidas em primeiro plano de forma silenciosa debilitando o organismo antes mesmo do seu aparecimento no corpo visível - uma verdadeira revolução silenciosa.
O simples e tradicional treinamento da marcha, bem como, o treinamento especializado em contato cinestésico, são fundamentais para o tratamento da DA, especialmente nas fases inicial e moderada da doença. A literatura científica ressalta, também, a importância da abordagem fisioterapêutica na manutenção funcional, cognitiva e social do paciente. Relata, ainda, a melhoria na qualidade de vida do paciente, do trato dos cuidadores e da relação familiar.
Lógico que por aqui, nesta área, contamos primeiramente com o nosso anjo da guarda da fisioterapia, uma profissional talentosa que há um ano exercita mamãe, nos orienta para as atividades diárias, para o trato físico com a enferma e nos oferece dicas de adequação do ambiente físico, ajudando a retardar o agravamento dos acometimentos motores causados pela doença.
Sem condições de exercitar a cognição e realizar as Atividades de Vida Diária (AVD), mas com um mínimo de possibilidade de locomoção, substituo tudo o que fazia de terapia cognitiva por passeios no shopping, sessão cineminha à tarde, além de intensificar os poucos exercícios de fisioterapia que ainda consegue realizar.
Próxima etapa, portanto: compreender as progressivas e irreversíveis limitações de mamãe e criar alternativas para a melhoria da qualidade de nossas vidas.
Aproveito para socializar algumas das leituras que tenho feito sobre a temática:
- Estratégias de intervenção fisioterapêutica em indivíduo portador de Doença de Alzheimer. Jaqueline Colombo Ely e Magali Grave, 2008.
- Contribuição da fisioterapia na reabilitação física do portador da Doença de Alzheimer. Maria Marcionilia de Paula, 2013.
- Mal de Alzheimer e a atuação fisioterapêutica. Gerlania Maria Silva de Mendonça e Marilene Batista da Cruz Nascimento.
- El Baúl de los Recuerdos, vol. 6 - Música, motricidad, manualidades. Noelia Sáez Sanz, 2003.
- Neurociência da Mente e do Comportamento. Roberto Lent, coordenador. Capitulo 9 - Controle Motor, por: Claudia D. Vargas, et al., 2015.
- Cem Bilhões de Neurônios? Conceitos fundamentais de Neurociências, capítulo 11 - O corpo se move. Roberto Lent, 2010.

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